disclaimer
porque eu tenho uma necessidade absurda de me justificar (e me culpar)

eu não acordei escolhendo a verdade.
para ser sincera, eu nem queria lidar com ela agora.
a verdade é uma intrusa: não bate, não espera, não pergunta.
entra.
e quando você percebe, já ocupou todos os cômodos, arrastou móveis, acendeu luzes que você tentou deixar apagadas por anos.
eu só não suportava mais ler teu nome atravessado nas mensagens, como uma faca enfiada entre as linhas.
depois vieram aquelas mensagens sutis: “você não parece bem.”
e eu já não sabia mais separar você do meu silêncio, o silêncio do meu medo, o medo do peso que eu carregava sozinha.
então eu falei.
não sobre você.
não sobre o que você fez.
mas sobre o que ficou de mim depois.
falei sem nomear, sem acusar, sem te ressuscitar.
falei porque guardar estava me matando devagar.
transparente como vidro (e tão frágil quanto) deixei escapar uma fresta.
e por essa fresta algumas pessoas alcançaram meu primeiro texto, “ode à verdade”.
foi estranho… quase indecente.
mas, ao mesmo tempo, um alívio: como se alguém tivesse acendido uma lâmpada num quarto onde eu já não enxergava nada além de medo.
por isso escrevi de novo.
e escrever talvez seja a única forma de honestidade que me resta.
a única língua em que eu ainda existo inteira.
eu não queria viralizar, e nem achei que existia essa chance.
eu só queria aliviar o peso que me arrasta há anos.
só queria dar nome ao que me engole em silêncio todos os dias.
por muitas vezes me vi, como quem observa a própria vida de fora, sentada num podcast daqui a três anos e três meses, finalmente contando o que me aconteceu.
não é curioso como a imaginação tenta preparar o que o corpo ainda não teve coragem de dizer?
eu tive medo.
medo do julgamento.
medo da interpretação torta.
medo da crueldade que o mundo entrega com facilidade.
e medo, talvez o maior de todos, do impacto que a verdade teria sobre ele.
por muito tempo, escolhi protegê-lo.
eu dizia que ele estava bem, como se repetir suficiente vezes fosse mudar a realidade.
eu o envolvi num silêncio que parecia cuidado, mas na verdade, era o meu desespero tentando adiar o que um dia teria que emergir.
porque admitir essa verdade sempre pareceu um abandono.
e eu não queria abandonar ninguém. muito menos aquele que mais amo.
a única que quis abandonar foi eu mesma. e isso eu fiz por muito mais tempo do que deveria.
ninguém suavizou as violências que eu sofri.
ninguém diluiu o medo que ainda sinto quando preciso apenas sair na rua.
ninguém editou a minha história para que ela doesse menos.
e eu não consigo mais mentir assim.
não para o mundo.
não para ele.
e, finalmente, não para mim.

Gabi, esse adolescente te enxerga como uma presa, assim como todos os homens dominadores vêm as mulheres. A socialização masculina produz homens que matam suas próprias esposas, com as quais eles escolheram casar. Imagine as coisas que esse adolescente será capaz de fazer. Esse adolescente um dia será um homem. Talvez o que a vida veio a te ensinar é como é importante se proteger. Seu bem-estar vale mais que o conforto do outro. Talvez nunca tenham te protegido, e você acreditou que protegendo o outro ao máximo você curaria a sua dor. Mas talvez o que realmente irá curar é você adulta cuidar da você criança. Você merece cuidado, você merece proteção. E dizer a verdade também é se proteger.
Meus sentimentos! Que você e sua esposa consigam se reerguer, junto com os bichinhos de vocês! Espero que ele não tenha ferido nenhum, mas se o fez, saibam que não foi culpa de vocês. Não desistam de vocês, mesmo se isso significar ter que desistir dele! Vocês são maravilhosas e são luz, merecem ser felizes!